A arte é o ofício

Uma corrente de transmissão arrebentou no século XVIII. O artesanato pagou a conta por 250 anos. O que mudou agora não é a mão, é o canal.

Seis amostras de pigmento em linha sobre fundo cinza: negro de osso, ocre amarelo, garança, uma amostra vazia, azurita e umbra queimada
índice de pigmentos · edição 005

Em 1715 alguém cortou os quatro lados da Ronda Noturna para caber numa parede da prefeitura de Amsterdã. Levaram 64,4 centímetros da esquerda, 23,3 de cima, 11,3 de baixo, 7 da direita. As tiras nunca foram encontradas. Por três séculos o quadro mais famoso da Holanda foi um fragmento que todo mundo tratava como obra inteira.

Em junho de 2021 o Rijksmuseum devolveu o que faltava. O método está no comunicado do museu, escrito sem nenhum entusiasmo publicitário: a equipe ensinou a técnica e o uso de cor de Rembrandt a redes neurais artificiais. O computador refez as partes ausentes no estilo dele, tendo como base uma cópia do século XVII atribuída a Gerrit Lundens (Rijksmuseum, 23.06.2021).

Vale ler essa frase com mais atenção. Uma máquina aprendeu o modo de fazer de um mestre a ponto de continuar a tela dele. Isso descreve uma coisa que parou de acontecer no ocidente por volta de 1750.

O ano em que o ofício foi rebaixado

Em 1746 o abade Charles Batteux publicou Les beaux-arts réduits à un même principe, considerado a primeira classificação moderna das belas-artes. Ele separou de um lado as artes que têm o prazer por finalidade, música, poesia, pintura, escultura, dança. De outro, as artes mecânicas, que servem a necessidades. A divisão foi adotada rapidamente em toda a Europa e virou senso comum.

A hierarquia não nasceu ali sozinha, mas foi ali que ganhou formulação moderna. E a conta chegou para quem trabalhava com a mão dentro da matéria: cerâmica, tecelagem, madeira, vidro. Não viraram arte menor por fazerem menos. Viraram arte menor por decreto de classificação. Para compor o título fui pesquisar a etimologia da palavra e descobri isto aqui (estou procurando o autor da página para dar os créditos há alguns dias, mas ainda não encontrei). Se você está lendo este texto em inglês, vale a curiosidade sobre as línguas latinas.

A quebra da corrente

Antes disso, aprender pintura era entrar numa oficina. O aprendiz passava anos moendo pigmento antes de encostar num pincel. Moer pigmento não era tarefa de servente. Era o currículo. É moendo que se descobre que a azurita quebra fino e o ocre resiste, que a moagem grossa devolve brilho e a fina resulta em profundidade, que a mesma cor muda de temperamento conforme o óleo que a recebe.

Nada disso cabia em manual. Passava de corpo para corpo, num canal estreito e lento. Era exatamente isso que o sistema de oficina protegia para então gerar o conhecimento.

Quando esse canal se desfez, o que se perdeu não foi a habilidade, mas a maneira com que o conhecimento era transmitido.

A máquina e o homem

Existe medida para isso, recente. Jitao Yan, Kenneth Husted e Benjamin Fath revisaram 82 artigos acadêmicos publicados entre 2011 e 2021, selecionados de um conjunto inicial de 885, para entender o que a inteligência artificial faz com o conhecimento tácito (VINE Journal of Information and Knowledge Management Systems, 56(2), 522–540, DOI: 10.1108/VJIKMS-08-2024-0296).

O achado é preciso. A IA é boa em combinar conhecimento explícito, aquele que já foi escrito. Continua limitada diante do conhecimento tácito de três tipos: o relacional, o somático, o coletivo. Os autores concluem que experiência pessoal e sabedoria não se capturam apenas por dados. Concluem que o humano precisa permanecer no circuito.

Traduzindo para dentro do ateliê: a máquina aprende a receita de Rembrandt, mas a assinatura é intransferível...

Você não faz o pão crescer

Quem fermenta sabe disso melhor que quem projeta. Ninguém faz o pão crescer. Você mói, hidrata, controla temperatura, escolhe a hora, entrega o resto a um processo que não obedece a você. O fermento trabalha sozinho. A perícia está em criar a condição certa, ler o sinal na hora certa, reconhecer o ponto. Escrevendo esse texto lembrei de um documentário que assisti há tempos, cujo nome não recordo nem onde assisti, em que químicos criticavam a nova mania de dizer que alimentos saudáveis são os que contêm "menos química". A química está na própria concepção do que é cozinhar.

É exatamente essa a relação de trabalho com um modelo generativo. Você não executa. Você cria a condição e julga o resultado. Quem tem repertório de matéria julga melhor, porque já sabe reconhecer ponto.

O crioulo guarda a gramática

Línguas crioulas se formam quando povos sem língua comum precisam se entender. O vocabulário costuma vir do colonizador. A gramática, não. Ela vem das línguas que estavam ali antes. Sobrevive por baixo, estruturando um idioma que parece inteiramente novo.

Ferramenta nova funciona assim. O vocabulário é o do modelo. A gramática, se existir, é a sua, feita de tudo que você já moeu. Sem gramática própria, você fala a língua da ferramenta, o que qualquer um faz. E aqui eu sou um dos maiores críticos de como estamos lidando com a adoção dos novos métodos de trabalho que estão surgindo. Todos criticam muito o uso das novas ferramentas... eu mesmo já fui acusado de não ter a autoria total do meu trabalho apenas porque tive que me adequar rapidamente ao que o novo me propiciava. Ora, meus caros... eu vi o telefone chegar na minha casa e fiquei maravilhado com as cores na televisão, iniciei a universidade escrevendo matérias em uma máquina de escrever e a terminei em um computador, revelei fotografias em uma câmara escura nessa mesma universidade e hoje registro tudo numa máquina que cabe no bolso da minha calça... vi a internet nascer e o alvoroço que ela criou na maneira com que obtemos conhecimento. Vou escrever um texto sobre isso mais pra frente mas agora voltemos ao tema deste texto.

E o artesanato subiu de novo

Enquanto isso, a instituição mudou de lado. Está aberta agora, até 31 de outubro de 2026, a segunda Bienal de Cerâmica Contemporânea, Where the Day Starts, na cidade medieval de Rodes, patrimônio da UNESCO: 42 artistas de 18 países, cinco sedes, curadoria de Loukia Thomopoulou, Stamatia Dimitrakopoulos e Anissa Touati (NEON).

Barro em museu arqueológico não é folclore ali. É a linha de Batteux sendo apagada 280 anos depois.

Onde eu escrevo isso de dentro

Passei os últimos anos entre a pesquisa acadêmica e a produção visual. A coisa mais útil que aprendi não veio de nenhuma das duas. Veio de perceber que a parte do meu trabalho que a máquina faz bem é justamente a parte que eu já sabia fazer e cansei de fazer à mão.

O que ela não faz é decidir quando parou de melhorar. Isso continua sendo repertório. E repertório é tempo de matéria acumulado e isso será sempre uma construção humana porque a invenção surge de ligações não lógicas, não programadas e muitas vezes de um erro que não estava nos planos.

O que fazer com isso

Já escrevi aqui que criatividade é disciplina, não dom. Que a imperfeição é a assinatura que nenhum sistema apaga. Que a IA substitui execução, não direção. Este texto fecha pelo quarto lado: o que estava faltando não era talento nem ferramenta. Era o canal de transmissão que a modernidade nos tirou.

Algumas perguntas simples de fazer e desconfortáveis de responder: Quem foi o seu mestre? O que exatamente você moeu antes de começar a pintar? Você ainda se lembra de quem estava na sua oficina particular e te mostrou o que você tinha de especial como assinatura?

Se a resposta for "ninguém" e "nada", tudo bem, é a resposta de quase todo mundo da nossa geração. Só que agora existe um canal aberto de novo. Ele não pede que você seja aprendiz de alguém. Pede que você tenha o que moer.

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Eugenio Santiago é diretor criativo, artista visual e pesquisador. Escreve de Berlim, onde mantém o Studio 60B. Sua pesquisa de doutorado, no IALT da Universidade de Leipzig, investiga o que acontece com a percepção e com a autoria quando a máquina entra no processo criativo. É a mesma pergunta deste texto, feita olhando para trás: para a oficina, a pedra de moer e o aprendiz.

www.eugeniosantiago.com

© Eugenio Santiago. Reprodução proibida sem autorização.

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