IA não substitui direção criativa.
Substitui execução.

O que os dados de contratação já mostram sobre a fronteira entre operar e decidir.

Traço de aquarela que atravessa o papel e encontra uma malha de plano técnico em azul, com um ponto vermelho na junção
o traço que vira planta · capa também usada no Medium

Nos últimos meses, toda conversa com colegas de profissão chegou ao mesmo lugar: A IA vai acabar com o design? É uma pergunta confortável porque não pede resposta, só constrói a atmosfera de pânico típica de mudanças de ciclos e adoções de novas tecnologias ou inovações que alteram os meios de produção e a sociedade. A pergunta útil é mais chata: qual parte do trabalho ela está de fato tocando?

Existe número para isso e o número é menos assustador e bem mais interessante do que o pânico sugere.

26% e o que esse número não diz

Em 2025, Dominika Weglarz, Cintia Pla-Garcia e Ana Isabel Jiménez-Zarco publicaram na revista Retos um estudo sobre adoção de IA generativa na indústria criativa (DOI: 10.17163/ret.n29.2025.01). A estimativa: até 26% das tarefas em artes, design, entretenimento e mídia podem ser automatizadas.

Vinte e seis por cento é um número que assusta bem. Até você ler como as próprias autoras resumem o achado: "IA não substitui a criatividade humana, mas pode potencializá-la significativamente."

Vale ler devagar, porque é aqui que a maioria dos textos sobre o assunto tropeça. Automatizar 26% das tarefas não é substituir 26% dos profissionais. É a distância entre a parte do trabalho que se executa e a parte que se decide.

E essa distância já tem endereço no mercado de trabalho.

o que as vagas de emprego já mostram

Em maio de 2026, Fabian Huhle assinou pela Roland Berger um relatório sobre o impacto da IA e da automação no talento criativo, construído em cima de dados da TalentNeuron: anúncios de vaga reais, não projeções.

O retrato é específico. Cargos de execução técnica pura estão perdendo espaço rápido. Editor de texto publicitário. Motion designer: 45% de disrupção nas competências exigidas.

Aí vem a parte que quase ninguém cita. As 31 habilidades que compõem motion design continuam em alta demanda. Elas só mudaram de casa. Aparecem agora dentro de outro cargo: editor de vídeo, diretor de arte.

A habilidade não desapareceu. O cargo que a isolava, sim.

Do outro lado da mesma planilha, cargos definidos por originalidade, pensamento estratégico e autoridade criativa estão crescendo. Não é sorte nem ciclo. É o mercado redesenhando sozinho, vaga por vaga, a fronteira entre o que se comanda e o que se opera.

o arquiteto não assenta tijolo

Faz décadas que ninguém espera isso dele. O que um arquiteto faz é decidir por onde a luz entra, quanto peso a estrutura aguenta, que caminho o corpo percorre dentro do espaço. A argamassa, o prumo, o encaixe exato de cada viga: sempre foi trabalho de outra mão.

Ninguém nunca chamou isso de arquitetura substituída pela construção civil. Chamou de divisão do trabalho.

A IA generativa fez essa mesma divisão entrar no design, na escrita e no vídeo, algumas décadas depois de ela ter se resolvido no canteiro de obras. O risco real não é a IA virar arquiteta. É o profissional que só aprendeu a assentar tijolo descobrir que a IA assenta mais rápido e mais barato que ele.

o comandante e o piloto automático

Um avião comercial passa a maior parte do voo em piloto automático. Isso é verdade desde os anos 1970. E ninguém embarca achando que o avião dispensa piloto.

O piloto automático executa: mantém altitude, corrige rota, ajusta consumo. O comandante decide: se decola apesar da turbulência prevista, o que fazer quando um sistema cai, se o aeroporto alternativo é seguro o bastante. O que se automatiza é sempre a parte repetível. O que fica com o humano é o julgamento sob incerteza, o tipo de decisão que não tem resposta certa esperando para ser calculada.

Direção criativa é exatamente isso. Não é a mão que executa. É o julgamento que decide o que vale a pena executar.

onde eu escrevo isso de dentro

Não chego a esse argumento de fora. Meu cotidiano é instável de propósito: um dia é rascunho de projeto novo, no outro é arquitetar agentes para automatizar algum processo, no outro é peça conceitual para campanha. Sempre na lógica de tentar, errar, acertar, refazer, testar de novo, sem romantismo de que a primeira ideia é a escolhida.

A tese que terminei este ano, em Berlim, levou quase 60 meses. Nos primeiros 50, nenhuma IA: leitura, campo, fichamento, escrita. Ela só entrou nos últimos 10, para uma função bem delimitada: organizar dados, montar planilhas, cruzar informações e dados científicos.

Cinquenta meses de pesquisa e dez de organização. Essa proporção é o argumento inteiro. A ferramenta não escreveu a tese. Ela devolveu o tempo que eu gastava alinhando tabela à mão. Esse tempo foi para o que não tem atalho: decidir o que vale editar com critério e assumir a forma final com a minha autoralidade.

Orquestrador não é quem faz tudo. É quem sabe o que entregar a quem.

o que fazer com isso

Já escrevi aqui que criatividade é disciplina, não dom. Já escrevi que a imperfeição é a assinatura que nenhum sistema apaga. Este texto fecha o argumento pelo terceiro lado: se a disciplina constrói e a imperfeição assina, a direção é quem decide o que vale a pena construir e assinar.

Então a pergunta deixou de ser "a IA vai fazer meu trabalho". Virou: qual parte do meu trabalho é assentar tijolo e qual parte é desenhar a planta.

A primeira, delegue sem culpa. A segunda ninguém nunca fez por você. Nem antes, nem agora.

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